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Já ouviu falar em animais ferais?

O abandono de animais é crime, atividade ilícita prevista na Lei 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais) em seu artigo 32, incluindo animais silvestres e domésticos. Aqui vamos destacar apenas os animais domésticos e as problemáticas que esse abandono gera no meio ambiente. É óbvio que a vítima maior é a espécie abandonada e apesar de ser vista como vilã, ela é apenas o resultado de uma ação do homem, ou seja, quando se coloca os “pingos nos is” os verdadeiros vilões nessa trágica estória somos nós.

Não é difícil encontrara pelas ruas das cidades cachorros e gatos perambulando nas avenidas e becos, em busca de alimento e abrigo. Ocasionalmente alguém oferece alguma coisa pra saciar um pouco de suas necessidades. Um salgadinho aqui, um pãozinho ali, um potinho com água na calçada ou até mesmo casas improvisadas com madeira e panos velhos pra aquecer as noites mais frias.

Um dos grandes problemas gerados nas cidades é a multiplicação destes bichos com uma velocidade absurda. A falta de programas para controle ou mesmo a incapacidades destes programas de realizar campanhas para castração faz com que estes animais procriem de forma descontrolada, e a cada ninhada, são mais indivíduos que passarão fome, sede e falta de abrigo. Em alguns casos, o problema são os ataques que estes animais promovem as pessoas, podendo causar ferimentos graves e transmissão de doenças.

A transformação destes animais domésticos em animais ferais é o processo que faz com estes voltem com comportamentos selvagens. Nas áreas rurais onde há presença de florestas ou até mesmo em áreas ao entorno de Unidades de Conservação, o problema se torna ainda maior. Os cães abandonados se estabelecem em matilhas e desempenham de forma muito eficiente a predação de espécies silvestres, inclusive indivíduos de médio e grande porte como veados e até mesmo antas. Os biólogos e estudiosos de fauna classificam o cão doméstico como maior predador de animais silvestres do Brasil, já que além de predarem, ainda funcionam como veículo de transmissão de doenças disseminando um ciclo de mortandade entre os animais silvestres.

Estes impactos negativos podem ser muito bem observados no Parque Nacional da Tijuca ou Floresta da Tijuca como é mais conhecido, localizado no Rio de Janeiro e no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros – Goiás, conforme pode ser constatado numa entrevista com os gestores e estudantes que desempenham pesquisas nestes locais, (https://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/caes-abandonados-viram-predadores-na-floresta-da-tijuca-19583787). Com estes dois exemplos é possível identificar que não existe distinção de biomas para estes impactos.

Na Floresta da Tijuca, os mamíferos foram os alvos mais atacados por estes cães domésticos, entre eles estão as pacas, tatus, cotias e até mesmo em alguns casos macacos. Já no Cerrado, até animais de grande porte como as antas já foram vítimas destes animais ferais. O problema se tornou de grandes proporções e longe de se obter uma solução.

Durante nossas incursões a campo para estudos de fauna e flora, é muito comum encontrarmos com cães nas trilhas e interior de florestas vagando, algumas vezes solitários outras em grupo. Nos registros das nossas armadilhas fotográficas também é possível constatar a presenças destes animais.

Os impactos negativos causados são realmente grandes e até o momento se tem apenas uma ideia do que ocorre e pode acarretar todo esse desequilíbrio. A solução é o investimento constante em educação ambiental, fomentação de programas de cadastro de animais e seus donos quando possível, investimento nas unidades de zoonoses criando ou ampliando programas para castração e vacinação dos cães, entre outras medidas. É claro que nem todas as soluções apontadas podem ser implementadas de uma única vez ou em todos os municípios brasileiros, e independente da solução discutida e aprovada, os resultados virão a longo prazo, o que se sabe com certeza é que alguma atitude precisa ser tomada.

Fonte:

Leandro Cruz - Oct 29, 2018

  • Mastozoólogo, atuando há mais de 10 anos na área ambiental, com foco em trabalho de campo, e estudos de fauna.

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